Não é fácil resolver viajar


                 Parecia ontem. Foi numa sexta-feira, o dia em que todos podem finalmente se livrar de trabalhos e escola, o dia em que adultos vão aos bares beber e pequenos jogam seus vídeos-game, que eu resolvi pegar um ônibus e viajar para Santa Catarina com minha família. Sabíamos que ia ser uma viagem longa, e bem longa, já que nenhum de nós aguentávamos ficar sentados em ônibus por muito tempo. Mas precisávamos visitar nossa tia-avó, pois fazia 10 anos que não íamos lá.

                Acordamos com o pé esquerdo. Todos. Todos acordaram atrasados, e foi aquela correria para não perdermos o ônibus. Nem tomamos café da manhã; levamos umas bolachas para comer no caminho.

                 Chegando à rodoviária, quando estávamos entrando no ônibus, fomos parados por dois guardas. Foi então que pensamos, quase que ao mesmo tempo, juntos: “Vai ser um longo dia”.

               Pensamos que provavelmente os guardas diriam que não poderíamos entrar no ônibus com comida nem bebida; ou que provavelmente nós estávamos com alguma coisa cortante ou algum perfume, ou que nós estávamos levando ‘Cheetos’ para dentro do ônibus. Foi então que eles disseram: “Ei! Vocês! Vão para santa Catarina, não vão?”. Todos soltaram um suspiro de alívio. Meu pai prontamente disse: “Sim, vamos. Aliás, você não está vendo que estamos entrando no ônibus que nos levará para Santa Catarina?”. O guarda, quase rindo, falou: “A não ser que vocês queiram ir pra Argentina, esse não é o ônibus de vocês.”

               “Mas então, onde está o nosso ônibus?”, disse meu irmão mais velho, já com raiva de ter confiado em mim para achar o ônibus correto. “Acho que.... aquele ali, que está indo embora agora.” Imediatamente nós pegamos nossas coisas e fomos correndo para alcançar o ônibus. “PAAAARE!!!” O pai dizia. “ALGUÉM PARE ESSE ÔNIBUS!” Mas nada adiantou. Eu, como era “super esperto”, resolvi pegar uma pedra do chão, e toquei numa janela do ônibus. Ela quebrou em mil pedaços, e o ônibus parou na hora, numa freada brusca.

                “Viu pai! O ônibus parou! Podemos ir embora agora!”

                Eu me lembro daquele dia como se fizesse pouco tempo. Meus pais tiveram que pagar a janela quebrada do ônibus e a conta no hospital da pessoa ferida pelo vidro quebrado, além de levar uma multa por destruir meios de transporte público. Meu irmão, logo após eu ter jogado a pedra, ficou de boca aberta, e está com aquela boca até hoje, não acreditando como eu pude fazer aquilo. E eu? Eu estou aqui, no meu quarto, desde então, com vários roxos pelo corpo, de tanto apanhar. Como se tivessem tocado pedras em mim.

            Lucas, dia 18 de agosto. Sábado.

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