O teatro é diferente do amor

Representar é a arte mais desafiadora que eu conheço. Quem mais consegue controlar um personagem totalmente diferente de si mesmo e ainda interpretar uma cena aleatória? Eu parabenizo quem consegue. Queria poder fazer isso com o amor. Controlar um personagem romântico, com dinheiro (porque um romântico sempre tem que ter dinheiro, senão não consegue ser romântico), engraçado, que tenha aquelas respostas prontas, pra deixar a sua parceira de cena louquinha por você, e depois beijá-la como se fosse o gran finale da tua peça?

Representar, encenar, "teatrar" não é só para os que "não tem vergonha, não são tímidos". Na hora do primeiro encontro, todos fingem que são aqueles com quem a sua parceira se identificaria. Conversar, rir, sorrir, tudo parece aquele filme que tu viu ontem na "Tela Quente". Você é o homem que apareceu naquele comercial, com aquele perfume emprestado da mãe, forçando os braços pra parecer mais forte. Ela é a mulher do outro lado do bar, daquele filme, com aquela luz misteriosa destacando ela e somente ela. O xaveco é a pior parte da encenação, mas o improviso te salva quando ele consegue tirar aquele sorrisinho dela. Pronto, o próximo capítulo já tá escrito. Já tá no script, tu tem uma chance. Um outro encontro, um novo cenário; um outro dia, uma nova cena.

Antes de sair de casa, o tempo voa. O que importa é o que todo mundo espera ver num filme: quando ele vê ela, ela vê ele e só existe o mundo dos dois, mas enquanto isso, ele voa pra se arrumar, porque já não tem mais tempo pra um último ensaio.

O caminho que leva até o local predestinado, que na primeira vez já era longo, parece levar um ato inteiro. Parece que os diretores disso tudo gostam de deixar os espectadores ansiosos pra última parte.

Quando ele chega, ela não chega. Será que ela esqueceu que tinha que ter entrado na cena?? Não, faz parte do drama. Ela chega depois de propósito, pra chamar a atenção. Ela quer todos os holofotes somente pra ela agora, e ele baba por ela, porque ela é linda, usando aquele mesmo perfume que ele tinha sonhado coincidentemente no capítulo anterior. Conversa vai, script vem, é chegada a hora. A hora do "finalmente vai rolar, eu tô esperando isso o filme inteiro". Eles chegam mais perto, a câmera dá um close; eles chegam mais perto ainda, a música do teatro para, o holofote branco ilumina acima deles e o resto fica escuro. Eles conversam como se fossem feitos um para o outro. Mas quando é pra acontecer, não acontece. Alguma coisa dá errado e ela se irrita com ele pra sempre, dá um tapa na cara dele e sai, furiosa.

Então, não chove só pra ele. Ele não entra em depressão, deixa isso tudo pra lá e vai embora. Aliás, era tudo um teatro. A vida real é totalmente diferente. Esse é o amor. Por fora, são dois apaixonados, dois amantes. Por dentro, eles só queriam ir pra casa olhar a novela.

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