O Desespero do Otimismo
"Não me deixe agora. Nos momentos difíceis, nos momentos que mais preciso. O que eu tenho contigo é precioso, é tesouro, é perdido achado. De todos os loucos do mundo a tua loucura se identificou com a minha; a tua insanidade, a minha imaginação. Não desiste de mim, quando a vida está prestes a desmoronar, as folhas caindo e me levando junto pro bueiro, as músicas alegres não fazendo mais sentido e as tristes aumentando minha saudade e vontade de ti. Me chama, me manda a notificação que eu sempre vejo e respondo. Não seja aquele e-mail que é spam e me notifica da tua presença, me diz que não precisa procurar no Google onde tu estás, porque tu estás do meu lado. Seja a publicação mais vista, seja a propaganda irritante que sempre aparece.
O que eu sinto por ti não é de hoje, é de sempre. Estou desesperado mas é por um bom motivo. Aliás, já chega de disfarçar, não é mesmo? Digo na rede social que te quero e que te preciso. Digo que você está se distanciando e não nego que estou preocupado. Quero você perto de mim porque sem você eu não tenho a mim; não sei o que sou sem ti. Não grito ao mundo porque sei que não é isso que precisa. Sinto que tu é minha única salvação, mas a única coisa que tu fazes é pegar cada vez mais a rua errada, o desvio pro lado errado. Nunca te coloquei sinais vermelhos, ou coloquei? Nunca senti que tinha o controle da situação, que podia dirigir minha vida contigo ao meu lado. Sempre convivemos juntos.
Leio e releio o que escrevo e parece que estou cada vez mais certo do que preciso, da falta que me faz não te ter. Já é claro que sem ti não vivo, que aprendi a viver contigo e que contigo quero estar. Supliquei por ti, Implorei por ti. Não posso fazer mais nada. Fiz o que estava ao meu alcance. Não posso ir às estrelas, porque tu eras meu foguete. Tenho que me contentar com os telescópios que me são apresentados.
Sei que o que vejo quando olho pra ti é um "Já volto, mas só depende de ti". Sei que depende de mim, mas sinto que a cada música que escuto a melodia parece distorcer-se cada vez mais; o ritmo é triste, o estilo me vicia, a voz me corrompe. A psicodelia já faz parte das estrofes, porque não escuto a música, mas a mensagem, o sonho por trás dela. Então me vejo encarando a ti, novamente. Me vejo querendo-te, novamente.
Não é uma pessoa que preciso, é a sensação, o sentimento, um momento, uma vontade. É o otimismo de aproveitar o que tenho e o que consigo. O álcool já não pode fazer mais parte desse papel encorajador. A diversão veio e parece que já quer ir. Será que houve alguma diferença em todo esse tempo?"
Entende que não é preciso isso? Que não se têm esse poder de reclamar de quem não compartilha seus momentos. Pedir é para favores. Não é alguém que se é querido, é o momento, a festa, a reunião, a risada, o sorriso desenvergonhado. É a seriedade, o tempo útil e o ócio.
É o desespero do otimismo: do bom e do melhor. Temos o que temos. Querer não é poder, ou deveria ser? Não precisamos de textos em primeira pessoa cheio de súplicas mal-intencionadas quando temos um valor simbólico e emocional adormecido, porém tão grande dentro de nós.
"Assim, quando percebo que encontrei minha xícara de café recém feito, meu cobertor aconchegante, minha companhia - seja ela um alguém ou outro cobertor - minha rotina, meus compromissos intactos e minha vontade de querer estar onde estou, ou seja, algo que desejo e que consegui realizar, percebo que não preciso de mais nada para viver".
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