Á procura da êxtase do momento

      Cansa-me e extrai-me as energias pensar que estamos vivendo em um mundo que parece sem opções, que parece não ter soluções ou saídas a oferecer. Entristece-me perceber tantas mentes maravilhosas perecendo à mercê de influências sociais e ruas sem saída imaginárias. Enraivece-me encontrar adolescentes com uma esperança da vida tão medíocre. Músicas e vídeos com um clima tão negativo, mas que é tão tóxico... as pessoas não têm a quem recorrerem, já que aquilo é o que eles acham que lhes confortam.

      Penso na minha história e no clichê "como no passado era melhor". Todas as gerações tiveram problemas em suas épocas, mas nenhuma delas idolatrou a negatividade ou o amor ao horror. A depressão já é considerada uma epidemia global. O amor é inexistente e inacabado; algo como efêmero, tão distante, mal-visto, marginalizado e desentendido. A busca, hoje, não parece mais ser por algo vital, mas por uma piada compartilhada onde está tudo bem ser abaixo da média e tudo bem procurar algo que me diminua.

    Nos históricos de internet dos jovens o que se percebe é uma sintonia aterrorizante de músicas sobre a tristeza, algo com o que eles se identifiquem; junto disso, textos sobre o vazio existencial da mente que parece expandir pelo resto do corpo e vídeos que demonstram claramente vontades incrédulas de atitudes desoladas.

       Mas o que há com eles? O que há com o amor? Que trauma social pode lhes ter ocorrido a ponto de nunca acharmos que vamos conseguir algo em vida? Onde está a vontade de viver ou, melhor, o que é viver para eles?

      Então percebo que a sociedade perdeu de vista o que mais lhes é escondido: o amor por viver. Nos rostos dos jovens não vejo o sorriso sincero; vejo a lágrima escondida, o futuro assombrante, o coração despedaçado. Não vejo recuperação, não vejo sol nem lua, não vejo vontade. Sinto-me observando um labirinto gigantesco dentro de cada mente e o que era pra derrubar estas paredes e mostrar-lhes o pátio aberto da vida, não vejo mais.

      Forço-me a acreditar que a luz no fim do túnel não é só uma estória fictícia, mas também uma saída para a escuridão que eles vivem, para então percebermos o quão importante é o vício de viver. O tóxico e o assombroso devem ser arrancados de seus corações a ponto de vermos as rosas brotando de suas peles, as borboletas voando de seus estômagos e o amor fluindo entre suas veias.

      Cresce em mim uma fúria pelo que não presta, pelo que parasita dentro de cada consciência. Uma vontade de destruir os monstros que convencem que o bom é efêmero surge de repente e me vejo ali, presente para todos.

     Aos poucos, o que tenho dentro de mim ultrapassa minha alma e atinge os que vivem ao meu lado. Sinto-me de braços abertos, envolvendo cada um em um abraço e enchendo as jarras de todos com um amor que nunca transborda, mas que sempre viveu em todos.

   Á dança da vida, celebramos nossas vitórias, sorrimos por cada momento excepcional, detestamos amizades rasas, convivemos com o futuro amor que nos cercará...

     Acordo de meu devaneio e percebo que a realidade é pior do que eu imaginava. No entanto, o amor ainda persiste, diminuído em todos por experiências traumáticas. Vejo a baixa autoestima e luto contra ela. Percebo que esses jovens precisam amar a si mesmos para que esbocem o sorriso sincero, para que não compliquem os momentos bons que a vida oferece. Quero que alcancem o êxtase do momento, atinjam o infinito sentimento dentro do possível, acreditem na resiliência que vem dos seus passados e melhorem; evoluam seus sentimentos a ponto de sorrir sem ter um porquê.

    Mesmo que isso seja uma tarefa árdua e contínua, abro a porta da frente e vivo, pois é isso que sinto que devo fazer, já que o sentido da vida não me foi concedido, guiando-me ao prazer de não ir atrás do que me corrompe.

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