Viagem ao centro de mim

  Numa busca por cultura, esperamos adquirir conhecimento de fora e consumir hábitos, sotaques e expressões diferentes para ter uma bagagem cultural maior. Num tour pela cidade que amamos, descobrimos segredos que não imaginávamos, encontramos caminhos que levam à histórias desconhecidas e sentimos amor por um lugar. Entretanto, quando se trata de uma viagem introspectiva, tudo muda. Nada se sabe sobre o que vai acontecer. É desconhecido o sentimento que vai aflorar na pele. Há apenas essa jornada interna, caminhando em alguma direção, esperando alguma resposta.

  Muitas vezes somos inspirados à olhar pra dentro de nós mesmos depois de visitar algum lugar lindo - um pôr do sol no mar ou algum tipo de paraíso próprio - no qual temos pouco tempo para aproveitar. Olhamos para essa vista à nossa frente e notamos o mundo como ele foi construído, seja morro, montanha, mar ou movimento. Às vezes até achamos que é perda de tempo encarar o vazio por longos segundos, mas na verdade ninguém sabe o que se passa na cabeça do outro. Existe uma aventura acontecendo em cada milissegundo da imaginação de alguém que encara uma paisagem e ela é tão única quanto cada coração machucado. Nessa imaginação, viajamos para onde queríamos ir faz tempo: aos braços de alguém, aos risos dos nossos amigos ou aos amores possíveis - e impossíveis também.

  Nessa jornada que demora dias dentro de segundos e cabe catarses dentro de respirações, refletimos sobre a vida por si só. Esquecemos a rotina, a banalizamos ou até notamos que ela nunca prestou. Todas as decisões tomadas no passado agora quase parecem fazer sentido. A aceitação dessas decisões deve fazer parte, já que somos obrigados a viver dentro de nós mesmos até a morte. Esses deveriam ser os momentos em que as decisões mais importantes deveriam ser tomadas.

  O amor é a parte mais divertida disso tudo, pois são nessas viagens que o coração perde a noção e acredita que tudo e todos valem a pena ser amados - e não valem? Aquele relacionamento poderia ser mais que algo passageiro, aquele beijo poderia ser mais que um beijo, aquele olhar poderia ser mais que um olhar. O verbo "poderia" significaria "será": aquele rolê será mais do que um olhar. Dentro de um segundo faz sentido amar a pessoa errada, evitar a certa e inverter as coisas depois. Faz sentido acreditar que pode dar certo e sonhar com isso. Ao mesmo tempo, faz sentido sentir dor e querer chorar por amor. Depois de tanto que passamos, chorar é comemoração de que estamos fortes na luta.

  Por fim, existe um sorriso ao final da viagem. Prestes à pousarmos na vida real, a vida nos avisa que tudo é possível e impossível ao mesmo tempo e que é da vida não ser fácil porém divertida. Sorrimos por perceber que não sabemos o que está por vir, muito menos qual conexão devemos seguir. Cada viagem é uma história contada de nós pra nós, do jeito que melhor acharmos. Aproveitemos cada longo segundo para carimbarmos no passaporte da vida cada momento realizado.

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