O indubitável

  Penso, cá com meus botões, que quanto mais isolados ficamos, mais obrigados somos a conviver com a verdade que existe dentro de nós. Verdade aquela que transborda quando fechamos os olhos diante de uma música que nos toca; presente em cada quinto copo de vodka, verdade aquela que aparece em cada verso twittado, em cada segundo extra com os olhos pras nuvens e em cada cicatriz onde no coração se é encontrado.

 Se olhamos pra fora de casa - seja ela a nossa pessoa ou onde vivemos - vemos uma rotina totalmente diferente, aquela em que aceitamos a vida que transparecemos até o dia acabar, aonde nenhuma playlist parece se encaixar. Onde antes passávamos cinco minutos escolhendo a playlist de banho agora se vão vinte, pois já não se sabe mais qual sensação a água corrente deve te proporcionar. Vivemos uma espécie de mentira diária pois fugimos da verdade habitante em alma, confinada porém presente, verdade aquela escrita e não publicada, que faz o protagonista se virar e correr atrás de alguém com aquela música no máximo, prestes a fazer algo que não faria ontem.

  Pergunto então que mentira é essa, existente? Que audácia a minha supor que todos mentem pra si mesmos. Somos tão obrigados a seguir rotinas e histórias, assim? O confortável me conforta? Quem somos nós fora da nossa zona? Pergunto-me muito mais do que deveria, confinado do jeito que estou. A verdade, entretanto, questiona muito mais: nos provoca medo, ódio, fraqueza e vulnerabilidade. Muito pior do que a mentira, ela machuca enquanto conserta, se é que existe reparação.

  Por isso é normal achar que é um dia 'triste' pensar para si ou pensar nas verdades. Sejam quais forem e como forem, existem pra nos tirar do sério; aquela que estraga a memória ruim com sorrisos e que vai mudar tua vida pra pior do que sempre foi. Verdade aquela que expõe a imperfeição, exibe a própria busca por algo melhor e nos joga no chão pra mostrar a luz. Se a verdade é ruim porque é distante do normal, quem não concorda com o ordinário, vive no caos? Será que o caos traz a verdade? Seria o caos justo?

 Inevitavelmente, em algum momento da vida pensamos na verdade própria. De amor ou de felicidade, verdade se percebe indubitável quando traz o que nunca (ou sempre) imaginamos. É perfeita pois traz a imperfeição de seguir buscando a luz. Luz que vai queimar. Revelar segredos que escondemos por eras de nós mesmos. Entretanto, como isso nos melhora? Por que vale a pena sofrer? Já não estamos sofrendo por não nos iluminarmos?

  Não consigo achar outra forma de provocar dúvida senão questionando cada raciocínio entre uma xícara de café e outra.

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