Então, eu voltei a escrever.

  Textos e não trechos. Não sei o que se passou ou o quê voltou. Sempre achei que o amor era sobre não entender o que se passava dentro de si; reconhecer o sentimento desconhecido se torna o quê, então? Onisciência? Se assim fosse, seriam os sorrisos apaixonados das pessoas lapsos repentinos de divindade? Cada presente e cada beijo, um milagre? Românticos seriam sacerdotes, declarações seriam preces, "o amor seria como o vento, não o vemos, mas o sentimos, sabemos que ele existe". Irrefutável, controlaria multidões. O Congresso estaria cheio daqueles que usam o amor em prol de benefícios. Roubariam para amar. "Ele não fez, mas amou". Vertentes desta suposta religião transbordariam as ruas, gritando por diversidade e pluralidade. Não seria protesto, mas celebração. O amor finalmente venceria.

  Achei conforto em escrever na primeira pessoa. Como se estivesse conversando com quem quer que lesse. Como um blog, uma mensagem, um aviso e há quem arrisque dizer que é conselho. Por muito tempo achei que não era mais digno de escrever sobre o amor. Tantas séries banalizavam, multidões odiavam e eu sentia mais nada. "Isso não é mais para mim". Cansava de escrever do mesmo, de falar sobre a misticidade envolta e explicar conceitos baseado em vozes da minha cabeça. Pleno de minhas faculdades mentais, palestrava em faculdades fictícias sobre o quão importante era não perder o que me fazia viver. Cultuava o amor como religião. Seguia-o cego, confiante e cético contra céticos que não acreditavam. Porém, conclui que nem sempre o amor era de se compartilhar ou que talvez não valesse a pena. Talvez por causa de cicatrizes agora pouco expostas, cobertas por tatuagens, reduzi meus devaneios à meros 280 caracteres. Paradoxalmente, me sentia mais aberto e livre. Me aventurei nos limites da minha ansiedade em busca do que me dava vontade de escrever. Me perdi em jogos de palavras que nem de longe demonstravam o que a língua podia fazer com 4 parágrafos.

  Se escrevo, não digo que encontrei algo. Entretanto, indo atrás do meu núcleo emocional através de terapia percebo que há muito perdi o prazer no caminho. Deixei de sentir amor pela trilha e por cada tropeço dela. Achava fútil o que muitos chorariam vivendo. Meu sonho era o amor incondicional no qual eu estava sem condições de chegar perto de alcançar. Infelizmente a vida não é como ligar um interruptor de lâmpada, logo eu não posso me dar ao luxo de dizer que eu cheguei de uma péssima viagem, mas sigo tentando. E por tentar achar prazer em cada passo, me sinto num caminho. No caminho de um caminho, eu sei. Acho que a piada de reconhecer isso é o que me trouxe conforto em escrever. De reconhecer que tudo é um processo e aceitar faz parte; que viver essa montanha-russa é osso.

  No fundo, me sinto nostálgico por revisitar essa loucura. Pronto pra embarcar nas mesmas ondas que me jogaram longe. Prestes a cultuar a mesma religião que me excomunguei. Até esse ponto, voltar a escrever se torna metáfora. Na possibilidade de existir o Deus do amor, sou agnóstico de todas as possibilidades divinas do que é verdade. Serei pastor de rua, gritando minha inexplicabilidade. Mesmo que no fundo eu já esteja rezando por ela.

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