Mortem

 É falta. Falta em campo, é agressão. Falta de vida, humanidade e de capacidade de continuar. Falta de destino. E essa falta, esse erro na Matrix nos faz e nos torna falta. Faltosos de alguém, com algo a menos, com vida a menos.

 É empurrão. Na esperança dos afetados, empurrão do penhasco dos sonhos, na vida procrastinada e não valorizada. É aquele de sacudir o interior, que vem por trás, totalmente inesperado.

 É confusão. Latim para os monolíngues. Enigma indecifrável do inferno que vivemos. Cubo mágico com uma cor a menos, insolúvel. Inadmissível, é luz que não clareia. Luz ultravioleta, desnorteia. É enxaqueca, vertigem, tropeço e tonteira. 

 É tiro. Na cabeça de todos que não são mais sãos. No coração de quem precisa sofrer. Pela culatra do destino. No pé dos desavisados. É o de borracha que acerta na virilha, no foco mais sensível do humano. É tiro de onda da entidade que carrega a foice, levando mais um.

 É droga. Daquela dita toda hora, sempre presente. Daquela posta na boca que amortiza, desvia do correto, leva pro fundo do poço. Letal pra quem é vítima, não-letal pra quem assiste, mas com sérias complicações futuras.

 É dor. No pé, que insiste em chamar atenção todo dia. No dedo, toda vez que lembra. É dor de ferida que vira casca e que a gente tira hora e outra. É dor na orelha de estar vermelha, de tanto ser mencionada. No coração dos desolados. É dor na alma.

 A morte é ninguém. Ninguém ensina a dor e ninguém deveria passar por isso. Ninguém sai bem depois. Não tem tiro no escuro que traga alegria que compense. Ninguém pode empurrar a dor pra fora de ti. Droga única, ninguém te oferece. 

 Morte é luto. Por toda e qualquer perda, ela existe e permanece. Faz parte da nossa inspiração, sonho e pesadelo. É o travesseiro que vez e outra nos abraçamos fortemente. Te faz questionar sobre o que é bom e te convence do que faz piorar. É luto sem barganha e negação, apenas tristeza.

 Por isso tudo, a morte é memória. Imperfeitos, esquecemos a dor e o que nos faz mal, pra que não morramos junto. O caos passa, o luto esvai, mas a memória é intermitente. Memória de dor, memória de amor. Ninguém ensina a suportar o amor assim como ninguém ensina a suportar a morte. Que a vida seja sempre amena com as surpresas para as quais não estamos preparados. E se não for, que tenhamos braços abertos para onde escapar, respirar e então seguir. Pois ambos são permanentes e deixam marcas históricas. Paradoxos opostos desgraçados, indescritíveis porém alcançáveis. Dualismo inapto do universo humano que tem controle sobre tudo e todos, menos sobre o tempo.

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