Sobre não calar o peito
Eu sempre achei muito difícil escrever sobre o amor. Posto em altar do jeito que era, ele sempre me intimidava. Quando achava as palavras certas, logo me vinham vozes de pessoas supondo que o texto tinha um alvo, um alguém. Achava melhor evitar a fadiga e a discussão. Nunca quis ter que discutir meus sentimentos com quem quer que lesse. A verdade é que provavelmente todos os meus textos têm inspirações. Sentir algo me dá vontade de escrever, porém isso também traz medo; de que um dia isso acabe e a vontade de escrever se vá também. Talvez o meu futuro como escritor dependa unica e exclusivamente da minha vida amorosa. Externalizar o que existe em mim através de parágrafos ratifica meus sentimentos. Entretanto, como posso escrever somente quando há borboletas no meu estômago? O que sobra para o vazio? Como ficam as palavras quando não há amor como conexão? Como interligar clichês e sertanejos sem o nome dela no meio? Quem apoia o desamor?
Acredito que é um processo. Sabemos lidar com as boas notícias e bons sentimentos. Exalto-me por saber que amo e que acredito no amor. Porém me perco completamente ao ser destituído disso. As palavras fogem, o tom desafina e o dia acinzenta. A lágrima cai, a frase desconecta-se e a concordância inexiste. A luz escurece e a esperança morre. Repentinamente não há mais sentido em sorrir, por mais estúpido que isso pareça. Aliás, repentinamente o estúpido faz sentido. Queremos e ousamos sentir tristeza. Enfim, sinto que este não deva ser um texto sobre como aprender a desamar. Lidar com a falta de amor é único.
Entretanto, lidar com os próprios sentimentos é um caminho. Seja amar ou desamar, é sobre respirar fundo e sentir. Aceitar que existe o conflito entre o coração e o destino. Dar tempo ao sentimento e várias outras frases prontas que na minha cabeça fazem muito sentido. É sobre reconhecer e sentir e fluir e gritar e chorar e cantar e dançar e amar e odiar e respirar e todos os outros verbos maravilhosos perfeitamente conectados pelo teu nome.
Por mais que o último parágrafo pareça ser um bom final, me sinto incompleto. Respiro e me sinto livre pra escrever que o improvável também existe. Talvez aquele olhar por mais de um segundo possa sim ser um futuro. Aquela resposta curta talvez esteja machucando mais do que se imaginava. O que menos se espera pode acontecer, às vezes o amor tem dessas. Ele é arbitrário, muitas vezes injusto e arrisco dizer que infantil. Teimoso, não larga mão de certas coisas. Mas te surpreende. Te faz voltar a amar quando tu não aguentava mais odiar o mundo. Te joga no chão e te convence de que vale a pena ficar triste. É um bom amigo, daqueles que critica quando a gente erra e dá o melhor abraço apertado quando sente falta.
No final das contas, não há conclusão. Não importa quantas linhas existam e quantas vezes eu tente acabar isso, não sou capaz de contornar a silhueta do que é ou deveria ser aquilo que mexe tanto comigo. Quanto mais penso, mais sorrio em saber que não há final para o que nunca deveria terminar dentro de mim.
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