Dificuldade

  Finalmente abri o rascunho. Comecei a escrever e a refletir, abri meu vocabulário de escrita. Depois de meses pensando a respeito, decidi flutuar, deixar que meus dedos falem mais alto que meus pensamentos difusos. Dificuldade essa que existe e persiste a todo momento dentro de mim. Já tive tantos episódios eufóricos e tão pessoais que me impressiono com a capacidade de desistir. Invento requisitos pra publicação perfeita que não existe, exigências que meu superego demanda, problemas que meu coração procura. Não deveria ser tão difícil escrever o que se passa dentro do amor de quem exala demonstrações de afeto.

  Pego-me descobrindo lapsos de inspiração surpreendentes. Eu paro e digo: "Lucas, esse é um ótimo tópico pra se escrever sobre". Escrevo dois, três parágrafos. Descubro uma frase maravilhosa pra se começar e então nada. Metalinguístico, vejo minha ansiedade correndo solta em cada ortografia; sentimento pulsando em cada veia; animação e sorrisos curtos me dizendo que era isso que eu estava esperando acontecer. Mas as palavras se embaralham: a ortografia se torna curta e sem animação. Espero um sentimento solto que corre. Minha ansiedade pulsa através de sorrisos que não acontecem. Somente as veias sabem o que se passou em mim.

  Acabo percebendo que é muito fácil de relacionar isso com a vida. Quantas iniciativas e projetos foram um sucesso dentro da nossa cabeça? Quantos amores foram perdidos por uma boca que não se abriu na hora? Quantos corações se quebraram por palavras mal escolhidas? Até quando a ansiedade e a perfeição vão nos impedir de sermos mais crus, reais e fiéis ao acaso? No final, penso que não existe escrita errada. Melhor, ela existe: é simplesmente a que não foi concretizada. É a escrita entalada na garganta. São as frases que "ninguém vai se importar de ler". Imaginação louca essa que é marcada no papel, no blog e na pele. Escritos se tornam histórias, avisos e até mensagens de vidas que escrevem nós mesmos. Vou além: se somente ousamos escrever, quanto nós já tínhamos vivenciado? O que realmente não é contado? O que se escreve no asterisco do teu coração?

  Não é qualquer playlist que me traz a catarse. Não é qualquer bebida que me desencadeia a coragem. Não é qualquer amor que me faz escrever. Ansiedade nenhuma tem direito de me impedir de contar minha história, seja o que for acontecer.

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